terça-feira, 22 de novembro de 2016

Consciência Negra: Por quê? pra quê? é de comer?



Consciência Negra: Por quê? pra quê? é de comer?


Em algum momento da sua vida de usuário de redes sociais você deve ter se deparado com aquele cartaz de dizeres capciosos: “não precisamos de um dia de consciência negra, mas de 365 dias de consciência humana”. Sob um ponto de vista simplista talvez você tenha pensado que aquilo fazia sentido, certo? Ora, uma vez que todas as raças se unissem em prol do bem geral, não seria necessário colorizar a tal consciência.

Por Gabriela Moura Do Insectashoes

Ledo engano. Mas antes de soltar um “EITA!” ou o famoso “é só minha opinião”, por que não perder uns minutos do seu dia fazendo pequenas inserções na cultura negra e entender o que é essa tal consciência?
Essa imagem idílica de humanidade unida e homogênea parece ter o único propósito de apagar a história real do Brasil. Basta analisarmos os discursos:
“Consciência negra? Não precisa”.
“Cotas raciais? Não precisa”.
“Não sou racista, os funcionários da minha empresa são negros e até indígenas” – essa é a minha preferida.

Por que questiona-se políticas públicas de inclusão social, mas não se dá o mesmo foco de indignação às causas dos problemas que tornaram necessárias tais ações?
Por que falar de Consciência Negra? Muitos por quês que precisam de um certo tempo para digerir respostas. Spoiler: requer estudo, paciência e boa vontade.

O mito da democracia racial foi derrubado há tempos. Mas, antes de erguermos a bandeira da “diversidade” só pra fazer bonito pro nosso próprio ego, vamos tentar compreender o que isso representa de verdade. O Brasil viveu séculos de escravidão – mais precisamente, 358 anos -, um período marcado por violências que deixaram suas marcas até hoje. Você consegue contar quantas gerações existiram neste período? O pós-abolição não veio acompanhado ações sociais para a inserção dos então recém-libertos na sociedade. A realidade foi: políticas de embranquecimento da população, sob alegações que taxavam os negros de seres primitivos, menos inteligentes e mais propensos a doenças e pouca ou quase nenhuma preocupação em revisar a sociedade que, até então, vivia com tranquilidade um sistema onde servidão forçada era algo natural, aceitável ou mesmo incentivada, fomentada pelo status que a posse de escravos oferecia aos seus senhores. E isso falando apenas do básico do cenário catastrófico ao quais os negros foram submetidos.

Ou seja, uma vez “livres” (assim, com muitas aspas), os escravos tinham todo um mundo a ser desbravado ao lado de suas famílias, finalmente gozando de todos os direitos sociais que, por três séculos, foram negados. Tudo ficaria bem a partir de agora, né?

Não, exatamente. As questões sociais enfrentadas, principalmente pelos mais pobres, estão todas interligadas. Desde um sistema educacional defasado, até as já sabidas deficiências do sistema penal, passando por um mercado de trabalho pouco inclusivo e o funil propositalmente imposto no acesso ao ensino superior. Não é possível querer melhorar um sem olhar para o outro. É por isso que tantas áreas de conhecimento são envolvidas na racionalização de meios para diminuir o abismo entre negros e brancos no Brasil.

Você já fez o teste de verificar quantos negros existem em seu círculo social, faculdade ou trabalho? Então, proponha-se a si mesmo esse exercício diário. Os negros representam 53% da população brasileira, mas são a minoria em espaços considerados “bons” e maioria em espaços considerados marginalizados. Dica: resista a tentação de resumir tudo a meritocracia. Vá além.

O Dia da Consciência Negra vem para trazer à luz estas questões com uma proposta: larguemos o conceito de culpa e abracemos o conceito de responsabilidade. Não é ético, tampouco responsável, que se abra mão de repensar as estratégias de enfrentamento ao racismo estrutural e a violência contra a população.

“Aaaaah mas isso é segregação”
Essa é outra falácia comum na oposição dos debates raciais. Mas vamos refletir a matemática básica: se ao branco não é negado o direito da existência, se o branco não tem sua humanidade questionada, se ser branco é considerado o “normal e padrão” social, e, de acordo com a nossa realidade, foi criada uma hierarquia social ao longo da história, o que há de segregacionista na luta pelos direitos de quem está na base dessa pirâmide?

Questionar uma sociedade racista nunca significou prejudicar pessoas não-negras. O racismo é uma arma tão mortal e aceita, a ponto de os privilégios concedidos por séculos aos brancos serem vistos como direitos inquestionáveis, e a políticas que visam estender esses direitos aos negros são vistos como privilégios – alô, onde está o privilégio em ser o povo que mais morre violentamente ou o que menos ganha dinheiro?

Se você gostaria de entender como colaborar com a causa negra, uma dica é entender as dinâmicas raciais brasileiras e buscar coletivos e grupos de pessoas que se esforçam em diversas áreas para a nossa sociedade ser mais igualitária. Não sabe por onde começar? Aqui vão algumas dicas:


  • A negação do Brasil – o negro nas telenovelas
  • História da resistência negra no Brasil  
Negros dizeres
                                            Dandaras: a força da mulher quilombola


Raça humana – os bastidores das cotas
Ter uma “consciência negra” faz parte da construção da famosa “consciência humana”, que eu citei no início destes escritos. A negação dos debates raciais são uma ferramenta potente de manutenção do status quo,  e quanto mais desapegado formos a velos paradigmas, mais próximos estaremos de novas soluções.
Fonte: Geledés

domingo, 20 de novembro de 2016

Equipe Multidisciplinar

Saudades de coordenar uma equipe multidisciplinar que soube valorizar todos os momentos no sentido de desmistificar e aprender sobre a Cultura Afro-brasileira  Valeu!



segunda-feira, 11 de julho de 2016

A Cor da Cultura

Conheça o Projeto


A Cor da Cultura é um projeto educativo de valorização da cultura afro-brasileira, fruto de uma parceria entre o Canal Futura, a Petrobras, o Cidan - Centro de Informação e Documentação do Artista Negro, o MEC, a Fundação Palmares, a TV Globo e a Seppir - Secretaria de políticas de promoção da igualdade racial. O projeto teve seu início em 2004 e, desde então, tem realizado produtos audiovisuais, ações culturais e coletivas que visam práticas positivas, valorizando a história deste segmento sob um ponto de vista afirmativo.
Saiba mais
Fonte : www.acordacultura.org.br

sexta-feira, 15 de abril de 2016

MEC disponibiliza material sobre CULTURA AFRO-BRASILEIRA

MEC disponibiliza material sobre a CULTURA AFRO-BRASILEIRA para download

http://www.google.com.br/imgres?um=1&hl=pt-BR&sa=N&biw=1280&bih=699&tbm=isch&tbnid=9BRAJnH1WQ2dyM:&imgrefurl=http://www.formiga.mg.gov.br/%3Fpg%3D13%26id_busca%3D9537&docid=cAhuzwMWBYkZWM&imgurl=http://www.formiga.mg.gov.br/fotos/noticias/9537_0.jpg&w=600&h=544&ei=NrlYUOnKDtOw0QHO54D4Dw&zoom=1&iact=hc&vpx=194&vpy=351&dur=304&hovh=149&hovw=168&tx=172&ty=52&sig=114609073391166622119&page=2&tbnh=149&tbnw=168&start=15&ndsp=20&ved=1t:429,r:0,s:15,i:124
IMAGEM: http://www.formiga.mg.gov.br/fotos/noticias/9537_0.jpg
Em 20 de novembro de 2012 foi assinada a Resolução CNE/CEB nº 8 que define as Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Escolar Quilombola. Este documento foi elabora considerando as especificidades destas comunidades e teve com ampla participação de representantes das comunidades remanescente de quilombos. Nele se revisa a perspectiva ideológica da formulação de currículos escolares, respeitando os valores históricos e culturais dos alunos e professores das comunidades remanescentes de quilombos. Essas diretrizes atendem as deliberações da Conferência Nacional de Educação (CONAE, 2010) e ao acordo firmado no I Seminário Nacional de Educação Quilombola realizado em 2010.
 
Além das diretrizes, há um esforço do Ministério da Educação para através do PARgarantir que os sistemas de ensino (estaduais e municipais) incluam as escolas localizadas em Comunidades Remanescentes de Quilombos nas demandas relacionadas à infra-estrutura, formação de professores e aquisição de materiais didáticos específicos.
Há de se destacar o Programa Brasil Quilombola que reúne ações integradas entre diversos órgãos governamentais para as comunidades remanescentes de quilombos. O objetivo do Programa Brasil Quilombola é transformar as condições de vida destas comunidades, conforme o previsto no Decreto Nº 4.887, de 20 de novembro de 2003, que trata da regularização fundiária de terras de quilombos e define as responsabilidades dos órgãos governamentais, bem como o previsto no Decreto Nº 6.261, de 20 de novembro de 2007, que dispõe sobre a gestão integrada para o desenvolvimento da Agenda Social Quilombola no âmbito do referido programa.

terça-feira, 15 de março de 2016

"Todo preconceituoso é covarde"

“Todo preconceituoso é covarde. O ofendido precisa compreender isso”, Mario Sergio Cortella


Publicado há 11 meses - em 9 de abril de 2015 » Atualizado às 14:20
Categoria » Casos de Racismo · Em Pauta Mario-sergio-cortella
Violência urbana, desconfiança no outro, terrorismo. As ameaças do cotidiano que minam nossas forças são o tema desta conversa com o filósofo Mario Sergio Cortella. E ele sugere como agir diante das aflições sem perder a alegria de viver.
por Patrícia Zaidan do MdeMulher
filósofo e doutor em educação Mario Sergio Cortella, 61 anos, começa a entrevista dizendo: “Hoje, o Boko Haram matou cem pessoas no norte de Camarões… Todo dia há notícias assim”. O grupo fanático que ele menciona tenta fazer da Nigéria, vizinha de Camarões, uma república islâmica. E usa a barbárie para suplantar a marginalização política, econômica e social a que fora relegado pelos últimos governos. Essa facção sanguinária se tornou conhecida do público ao sequestrar 200 meninas nigerianas numa escola, em 2014. Muitas foram estupradas. Disputam o noticiário, as degolas de civis por outro bando de radicais, o Estado Islâmico e, ainda, os rescaldos do atentado ao semanário francês Charlie Hebdo, com a rejeição generalizada aos que professam o islamismo, a religião maometana que não prega o ódio muito menos a matança.
Dialogamos com o mestre que fez carreira na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo sobre esses eventos mundiais e sobre os problemas locais que causam angústia. Entre eles, a escassez de água e a falta de luz em São Paulo e outros estados, as balas perdidas no Rio de Janeiro – que, só no primeiro mês deste ano, fizeram 30 vítimas. Em um rápido olhar sobre o quadro atual, nota-se um mundo mais rabugento, intolerante, racista e dando mostras de falência de recursos naturais. Assim, a conversa é sobre nossa impotência diante dos fatos que nos oprimem e deixam a sensação de que não podemos fazer nada para mudá-los. “Mas não é para ficar deprimido com as coisas que nos perturbam”, provoca o paranaense em seu escritório, na capital paulista. “É preciso lembrar que todas essas coisas são criações nossas, da humanidade. E devemos refletir sobre elas se quisermos um futuro mais equilibrado e saudável.” Cortella lança neste mês Educação, Convivência e Ética: Audácia e Esperança! (Cortez), livro que, como suas palavras aqui, ajuda na travessia destes tempos difíceis.
Como o seu livro entra nesse panorama de inquietação e incerteza?
Ele fala em audácia e esperança, sobre a formação de valores e a recusa à fatalidade. Nosso tempo se caracteriza por coisas bem perturbadoras. Uma delas é o tsunami informacional. Há uma torrente cotidiana de eventos, que chegam de diferentes fontes e veículos, e nos preocupam para além das nossas possibilidades de agir. Temos ciência das coisas e nada podemos fazer, o que gera angústia e impotência. Até pouco tempo atrás, uma notícia ruim envolvia somente a sua comunidade imediata. Você ia lá prestar solidariedade ou saciar a curiosidade. Não é mais assim. No entanto, do ponto de vista da violência, é preciso lembrar que o mundo está muito menos violento que no século 20 e em toda história. Dados epidemiológicos e estudos sociais provam isso. O que ocorre é que somos mais notificados hoje, além de haver uma rejeição maior à violência.
Há episódios mais veiculados na mídia, e de uma forma que leva à comoção. O ataque aos chargistas do Charlie Hebdo, na França, impactou mais os brasileiros do que as notícias sobre as polícias militares terem matado 1,7 mil jovens negros no nosso país em 2013 ou sobre 30 feridos por balas perdidas no Rio só em janeiro. Por que a dor do vizinho não nos mobiliza tanto?
Ela me obrigaria a agir e tomar uma decisão ética. Torna-se fácil prestar solidariedade a um movimento social no Sudão ou ficar com pena de uma vítima de explosão no Iraque. É bem mais simples do que lidar com o menino acampado na porta do meu prédio.
Isso exigiria mais do que consciência tranquila por devotar compaixão ao povo do Sudão. Não é?
Exato. A realidade à minha porta me impeliria a uma ação. Não é qualquer adesão meramente virtual. Tem sido comum alguém postar, nas plataformas digitais, um convite para uma passeata. As pessoas dão um like, mas não vão lá. Pensam que participaram. Assim como se sentem engajadas ao assinar um manifesto qualquer ou comprar a camiseta escrita Je Suis Charlie. A transformação de atos em bits, a virtualização das coisas ocupa várias circunstâncias da vida. É importante, mas não resolve tudo. Madre Tereza de Calcutá tem esta frase imbatível, que captura o conteúdo da sua pergunta: “Difícil é amar o próximo. Amar quem está longe é muito fácil”. A ideia do que seja o próximo é complexa. Temos a notícia sobre o que acontece no entorno de casa, mas não nos envolvemos. No fundo, isso também provoca certo desconforto. Embora esse mal-estar não afete a todos. Muitos, neste momento, estão mais preocupados com quem ficará na casa do Big Brother Brasil.
A sensação de desconforto atinge do mesmo modo os jovens e os mais velhos?
A minha geração tinha uma causa: acabar com a opressão. Dos 20 anos aos 30, sob a ditadura, queríamos democracia, liberdade de expressão e de culto, desejávamos escolher os próprios caminhos, uma sexualidade nada amarrada, uma conduta feminina que não fosse secundarizada. A geração atual não vive esses bloqueios nem tem grandes batalhas. A maior das batalhas hoje é a ambiental. Mas não interessa tanto aos novos, porque a minha geração não erotizou a ecologia. Conseguimos erotizar um jeans, um carro, uma balada, uma cerveja… Mas não a causa do meio ambiente. Ela não se tornou um desejo.
Por que a juventude não se preocupa com o fim dos recursos naturais?
Eles deveriam pensar nisso. Mas é uma causa abstrata. Ninguém via o problema da água até poucos meses atrás. Agora temos que tomar providências. A ecologia fala de algo que ao jovem não interessa, que é o futuro. Essa não é uma má geração, ao contrário, tem censo de urgência, é criativa e disponível para uma série de interfaces. Mas vive o dia como se fosse o único. Por quê? Os mais velhos disseram a eles: “Vocês não terão futuro, não haverá emprego, ar puro, segurança”. Os pais também vivem repetindo que os filhos não tiveram infância, não souberam brincar e subir em árvores, como eles. Ora, quem acredita que não tem futuro nem teve passado só enxerga a alternativa de viver o presente até o esgotamento. “Aproveite o dia”, é o lema atual. Grandes causas, como o fim da homofobia e da violência doméstica, demoram. Leva-se tempo para conquistá-las.
Em um bairro paulistano, moradores fizeram refém um funcionário da Eletropaulo. Disseram que ele só sairia dali se a luz voltasse. Em um condomínio, também da capital paulista, moradores andam pondo o ouvido na parede para fiscalizar quanto tempo demora o banho do vizinho, quantas vezes ele dá descarga ou lava a roupa. Isso pode gerar truculência? Acirra os ânimos e cria um clima de desconfiança? Ou é aceitável?
No caso do refém, é um esgotamento de paciência. O usuário diz à empresa, ali representada pelo funcionário: “Não aguento mais ficar no escuro. Não posso ouvir a mensagem gravada informando que o serviço será prestado em seis horas, depois em oito e, mais tarde, em dez horas”. O cidadão já foi enganado demais. A atitude é perfeitamente compreensível, embora possa caracterizar até cárcere privado. Quanto ao controle do banho, penso que a escassez deve se tornar um tema coletivo. Falta de água é grave. Isso é que acirra os ânimos. Num transatlântico, se a terceira classe afundar, a primeira afunda junto. Tomar conta do vizinho é o primeiro passo para organizar uma reação conjunta à falta de água. Se um denuncia o outro por desperdício – e deve haver multa para isso -, não está sendo dedo-duro, mas cuidando do bem de todos. A medida não pode, porém, se tornar uma atividade persecutória, na qual alguém assume uma autoridade que não tem e passa a fazer daquilo uma cruzada. Seria perigoso.
Os autores das ações radicais, no terrorismo, têm entre 20 e 30 anos. Eram crianças no atentado às Torres Gêmeas, em 2001, e, de lá para cá, enfrentaram preconceito e islamofobia. Viram os muçulmanos se tornarem mal recebidos no mundo, com dificuldade de entrar em diferentes países e as mulheres serem proibidas de usar o véu nas escolas. Outro dado: na França, 70% dos presos são muçulmanos. A maioria morava na periferia e, sem estudo e trabalho, cometeu pequenos ou médios delitos. O Estado falhou com eles. Qual é a sua análise sobre as duas coisas?
Não estão presos por serem muçulmanos, e sim porque são estrangeiros pobres, de uma minoria excluída, encostados nas bordas das grandes cidades da Europa. A cadeia deve estar cheia de indígenas, em Dourados (MS); de mexicanos, na fronteira com a Califórnia, nos Estados Unidos; e de sem-terra em áreas de conflito agrário no Brasil. O problema é a exclusão. O jovem muçulmano na França é muito assemelhado ao da periferia das nossas grandes cidades. A arma na mão, no nosso país, é respeito e dinheiro imediato. Na França, é o terror que oferece reconhecimento a esses meninos. Alguns islâmicos entendem o suicídio (caso do homem-bomba) como martírio. Esses jovens se dão importância desse jeito. O propósito dá sentido à vida. De certo modo, eles se ressentem do preconceito no mundo todo, não só na Europa. O véu é problema aqui também. Em Foz do Iguaçu (PR), quem estiver com ele não tira carteira de motorista. A rejeição, porém, não é de natureza religiosa. Uma muçulmana da elite usa o véu onde quiser e é até imitada. Outra coisa é a falta de trabalho para os garotos. Na Arábia Saudita, por exemplo, a economia é restrita ao petróleo, não tem indústria, comércio. Eles vão para o Exército ou cedem ao apelo de psicopatas que recrutam para o terrorismo. Mas eu não tenho uma visão catastrófica do mundo atual. Há muito mais estados com democracia do que antes. Na ausência dela, coloca-se um nível de vitamina mais elevado no terror, caso do Irã e do Iraque, em comparação com a França.
Na democracia, a liberdade de imprensa é imprescindível. Debates após o atentado ao Charlie se deram em torno do limite do direito de expressão. Pode-se ser livre e causar dor no outro?
Não deve haver limite para a liberdade de expressão. E ela não causa dor. Ali ocorreu um excesso de sensibilidade. Quando eu era menino, meu pai dizia: “Se te xingarem na rua e você for aquilo, então não é xingamento, é verdade. E, se você não for, não é contigo”. Logo, se tenho uma religião e alguém tripudia com meus símbolos, não levo em conta. Não tem a ver comigo, mas com quem fez a piada. Pena dele. A grande encrenca do fanatismo é tomar como ofensa a postura do outro. Se quer ser imbecil, seja. Eu não assinaria o Charlie Hebdo. Aquela escatologia não interessa mais. O humor inteligente está na base da recusa ao preconceito. Algo como: “Não ria de mim, ria comigo”.
As pessoas estão agressivas na internet. Ali, há todo tipo de insulto, o que abala os ofendidos. Reagir ao preconceito, dessa forma, não parece tão simples.
Todo preconceituoso é covarde. O ofendido precisa compreender isso. O preconceito tem duas fontes: a covardia e a tolice. O intolerante em relação a etnia, cor da pele, orientação sexual, religião e extrato econômico tem medo de ser o que é. Ele só se eleva quando rebaixa o outro. Necessita ver que o outro não serve e não presta para ele poder valer alguma coisa. É um fraco que teme aquele que não é igual e se sente ameaçado por ele. Além disso, ser preconceituoso é ser burro e tonto.
Hoje, há passeata para tudo. O psicanalista Contardo Calligaris escreveu que levar crianças a uma manifestação de rua parece perigoso. Mas não levar o filho é mais perigoso para o seu futuro e o seu espírito. Eles devem participar?
O omisso é cúmplice. Os pais que escondem do filho temas importantes estão furtando dele a completude na formação – e tendem a fazer da criança uma vítima de um sistema que pode ser maléfico. A família deve discutir temas sociais, sim. Se ela decide não ir à rua, deve explicar o porquê. Há pais que dizem: “Não me meto em política”. Ao agir assim, já se meteram. Isso é nocivo.
Quando símbolos fortes, que serviam de balizadores para a sociedade, se enfraquecem, aumenta a sensação de impotência. Exemplos: a Universidade de São Paulo (USP) vive uma crise financeira e científica e também moral, por ter abrigado o estupro de alunas por colegas sem que isso fosse apurado. A maior empresa pública, a Petrobras, está envolvida em escândalos e corrupção. Por que isso mina nossas forças?
Mexe com a gente porque são nossos símbolos de poder. Mas estão surgindo outros ícones, como comunidades que se conectam em blogs para cooperar; dentistas que se juntam para atender sem cobrar; instituições como Doutores da Alegria, que vão brincar com crianças em hospitais. Conheço desembargadores, em São Paulo, que saem do tribunal, colocam o nariz de palhaço e vão entreter doentes. São novos marcadores.
O que é preciso fazer para entender este momento da humanidade que vivemos?
Os chineses acham que devemos lidar com a história e não com o momento. Você só compreende o hoje se olha a história no seu desenvolvimento. É bom recordar o que falavam as avós: “Não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe”. Portanto, nada de desespero. Problemas agudos se dissolvem no tempo. Os efeitos colaterais não são insuperáveis; podemos lidar com eles. É bom lembrar que devemos ter cuidado num mundo multifacetado, multicultural e multidiverso. Por isso, não podemos nos fechar em grupos exclusivos – só católicos, só gays, só muçulmanos -, o que leva à política do gueto e dilui a ideia de humanidade. Acabar com hinos nacionais também seria bom. Em geral, dizem: “Pega, esfola, estripa, arranca, mete a espada”. Temos de enxergar uma sociedade global e interconectada. Não pelo digital e pelo econômico somente, mas pela antropologia. Ou seja, pela convivência humana. E que cada um seja capaz de olhar o outro como o outro, não como o estranho. Homens e mulheres são diferentes, não desiguais. Brancos e negros são diferentes, mas devem ter os mesmos direitos.
O papa Francisco tem opinado em conflitos entre judeus e árabes, entre nações fortes e sociedades pobres, sempre na defesa da paz e da autonomia política dos povos. Repudia o terrorismo, mas critica o insulto à fé. Denuncia que o mundo é machista com as mulheres e prega respeito aos gays. Até provocou com a frase: “Sejamos revolucionários”. Muitos dizem que é o maior estadista do momento. Concorda?
Ele cumpre uma grande tarefa. Traz à tona questões difíceis. Não mexerá na doutrina, mas no campo da moral. Ele prega o acolhimento dos excluídos. Diz “Seja revolucionário” no limite que o cristianismo romano entende como revolução. A inspiração em Jesus ou São Francisco de Assis é boa para os jovens. O papa é uma expressão de alegria. Trata temas sérios de modo leve, não é carrancudo, não olha de cima. Assumiu o papel de defesa da paz onde há conflito. Ele me faz lembrar Benedito Spinoza, filósofo judeu que propõe a ética da alegria. É algo que precisa entrar na nossa rotina. Não quer dizer que a sociedade deva seguir no vício do hedonismo, buscar o prazer em tudo o que faz, seguir na lógica de que a vida é uma festa e não requer esforço. Isso degrada nossa capacidade, que deixa de construir algo um pouco mais forte.
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Filme sobre escravidão

Filme sobre revolta de escravos nos EUA é aplaudido de pé em Sundance


Publicado há 2 meses - em 26 de janeiro de 2016 » Atualizado às 16:13
Categoria » Esquecer? Jamais the-birth-of-a-nation2
Nate Parker usou mesmo nome do clássico ‘The birth of a Nation’, de D.W. Griffith
no O Globo
Em 1915, D.W. Griffith lançou o clássico do cinema mudo “O nascimento de uma Nação”, que se tornaria um dos filmes mais controversos de todos os tempos por seu retrato estereotipado dos negros do Sul dos EUA e visão heróica da Ku Klux Klan. Um século depois, outro filme com o mesmo nome, mas uma história bem diferente, foi aplaudido de pé em sua premiére no Festival Sundance.
O “Birth of a Naiton” de 2016 traz Nate Parker como roteirista, diretor e protagonista da história de Nat Turner, que liderou uma rebelião de escravos em 1831 na Virgínia. Segundo a “Variety“, o filme recebeu os mais entuasiasmados aplausos até agora nesta edição de Sundance.
“Fiz esse filme por um motivo: criar agentes de transformação”, disse Parker numa entrevista coletiva após a exibição do filme. “Há sistemas hoje em dia que são corruptos, com pessoas corruptas, e o legado disso influencia nossas vidas.”
O filme surge, é claro, num momento em que a questão racial ganhou espaço em Hollywood, em meio aos protestos pela falta de atores negros entre os indicados ao Oscar pelo segundo ano seguido.
Parker disse que vem trabalhando no roteiro há sete anos. Numa entrevista em 2014 ele já citava o projeto, confirmando o tom irônico na escolha do título. Na coletiva em Sundance, ele falou sobre as dificuldades de levar o projeto a frente.
“Sempre que lidamos com nossa história, especialmente a escravidão, eu acho desesperadamente higienizada. Há uma resistência em lidar com esse material”, questiona ele, afirmando que alguns investidores chegaram a dizer que “não havia público para essa história” e que “as pessoas fora do país não querem ver gente de cor”.
Segundo o site “The Wrap”, a Fox Searchlight já estaria pronta para fazer uma oferta pela distribuição internacional do filme. Confirmado o negócio, seria um primeiro grande impulso na disputa do Oscar em 2017. A Fox Searchlight lançou, afinal de contas, “12 anos de escravidão” em 2013.
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quarta-feira, 9 de março de 2016

O que é macumba?

O que é macumba


Publicado há 2 anos - em 3 de junho de 2014 » Atualizado às 14:45
Categoria » Patrimônio Cultural · Planos de Aula iroko02
Macumba é uma espécie de árvore africana e também um instrumento musical utilizado em cerimônias de religiões afro-brasileiras, como o candomblé e a umbanda.
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O termo, porém, acabou se tornando uma forma pejorativa de se referir a essas religiões – e, sobretudo, aos despachos feitos por alguns seguidores .
Na árvore genealógica das religiões africanas, macumba é uma forma variante do candomblé que existe só no Rio de Janeiro. O preconceito foi gerado porque, na primeira metade do século 20, igrejas neopentecostais e alguns outros grupos cristãos consideravam profana a prática dessas religiões.
Com o tempo, quaisquer manifestações dessas religiões passaram a ser tratadas como “macumba”.
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